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O Lugar das Árvores Tristes

O Lugar das Árvores Tristes

Escritora

Estes Dias | 10

Esperança tinha vários problemas de saúde. Falta de audição não era um deles. Baixou o som da televisão quando lhe pareceu ouvir uma tremedeira, quase como se fosse um telemóvel a vibrar. Esperou para ver se percebia de onde vinha o som. Levantou-se do sofá e foi percorrendo a casa devagarinho, encostando o ouvido às portas. Quando chegou ao quarto de Alzira, parou. Deixou-se ficar uns minutos, até o zumbido parar. A sua cabeça era uma espécie de aeroporto internacional em vésperas de Natal: demasiadas coisas a acontecerem ao mesmo tempo, ideias a embaterem umas nas outras, gente em pânico, gente com medo, gente feliz. Uma confusão absurda.

Do outro lado da porta, Alzira, desconhecedora ainda da sua plateia oculta, recuperava a respiração ainda deitada na cama. Nunca lhe falhava, aquele aparelhozinho. Era um dos seus segredos, talvez o maior. O mais inesperado, certamente. Fechou a bata, pôs o objecto lilás no bolso, ajeitou o cabelo e preparou-se para sair. 

Bateram cabeça contra cabeça. Olharam-se de alto a baixo, uma coreografia de feras em controlo territorial.

— Você estava a ouvir atrás da porta, dona Esperança??

— Pois claro que estava! Comecei a ouvir um zum-zum-zum, sabia lá eu o que era! Vim ver se descobria, podia ser alguma coisa importante. Um telefone a vibrar, pareceu-me. 

— Por amor de Deus… Já basta ter de a aturar aqui em casa! Tê-la a escutar atrás das portas já é de mais, não lhe parece?

— Olhe, por acaso, não, não me parece. Eu lá quero meter-me na sua vida?! Só estava preocupada.

— Não tem nada com que se preocupar. Está tudo bem, foi impressão sua.

Esperança, baixando os olhos para o bolso da bata de Alzira de onde espreitava uma ponta convexa lilás, disse:

— Pois… estou a ver que não…

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