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O Lugar das Árvores Tristes

O Lugar das Árvores Tristes

Escritora

Estes Dias | 3

O pior dia da vida de Alzira começou como todos os outros: uma caneca de café de saco e um papo-seco com manteiga engolidos calmamente, depois de tirados os rolos do cabelo e de trocada a camisa de dormir pela bata de andar por casa.

Era uma terça-feira, dia que Alzira dedicava a limpar o pó à sala. Esta tarefa levava-lhe o dia todo, por conta das colecções de elefantes, macacos e patos de loiça e dos dois serviços de copos de cristal que nunca usara mas que mantinha em exposição.

Seria perto do meio-dia quando ouviu um barulho inesperado na escada. Aproximou-se da porta e espreitou  pelo óculo, mas não conseguiu ver nada. Ficou à escuta. O barulho continuou, primeiro indecifrável depois afinal pedidos de ajuda na forma de gritos abafados. Não reconheceu a voz. Percebeu que não seria nos patamares mais próximos, portanto, seria mesmo à entrada ou lá em cima, junto ao terceiro andar. 

A curiosidade não era uma característica que Alzira tivesse. Mas a sua educação judaico-cristã impedia-a de prosseguir com a limpeza dos bibelôs, ignorando o desespero alheio. Abriu a porta.

Abruptamente, Esperança apareceu-lhe no patamar, o cabelo desalinhado, os pés enrolados um no outro, o fôlego há muito perdido. Empurrou Alzira para o lado e entrou de rompante.

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