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O Lugar das Árvores Tristes

O Lugar das Árvores Tristes

Escritora

Da poesia ao romance – uma epopeia

Comecei o meu percurso na escrita da forma mais basilar possível: lendo muito. Foi o facto de ler que me fez apaixonar pela arte de contar histórias. Foi o facto de viajar tanto dentro dos livros que lia que me fez querer dar vida às inúmeras realidades que foram crescendo dentro de mim.
Comecei cedo: aos 10 anos. Com essa idade, no 5º ano, escrevia semanalmente capítulos de uma coisa que mais não era do que um decalque da novela da altura (“Cinzas”, onde me apaixonei pelo charme do Ricardo Carriço e percebi que estaria amaldiçoada para sempre por homens daquele género). As minhas colegas gostavam de ler aquilo, incentivavam-me a escrever e eu escrevia.
Português foi sempre a minha disciplina preferida. Tive a sorte de apanhar professores maravilhosos (infelizmente, perdi o rasto a quase todos, e o único cujo paradeiro conheço é agora enfermeiro-parteiro, imaginem!), que me incutiram ainda mais a paixão pelas palavras. Percebi cedo que a minha forma de expressão seria sempre a escrita. 
Aos 12 anos, comecei a escrever fora do âmbito escolar. Aconteceu o Massacre de Dili e eu escrevi o meu primeiro poema, uma coisa absurda e que me faz engelhar muito o nariz, mas que vejo com a ternura com que se olhar para o que nos formou. Mantive-me na poesia durante uns anos. Porquê? Não faço ideia. Talvez porque os poemas não me exigissem uma linha de continuidade que outro tipo de histórias exigia. 
Da poesia derivei para a prosa poética. Culpa de quem? Do Pedro Paixão, autor que lia vorazmente por volta dos meus 17/20 anos. Foi também por esta altura que comecei a escrever pequenos contos, alguns dos quais acabaram publicados no DNJovem, secção do Diário de Notícias (infelizmente entretanto extinta) que dava “tempo de antena” a jovens aspirantes a autores (no âmbito da fotografia, pintura, ilustração e escrita). Desta secção saíram autores como José Luís Peixoto e Pedro Mexia, entre inúmeros outros.
Depois demorei muitos anos a chegar ao romance. Porquê? Para já, porque não sou a pessoa mais paciente do mundo e tendo a condensar uma história em três ou quatro páginas. Depois, porque não fazia a mínima ideia de como fazer aquilo. Não sabia como se estrutura um romance, não sabia sequer se há uma forma certa ou errada de o fazer. Precisava de ajuda e os cursos de Escrita de Romance do João Tordo foram a luz ao fundo do meu túnel.
Descobri várias coisas: não há uma regra. Cada autor fará conforme se sentir mais confortável. A mim, que já sabia que ia levar anos a terminar de escrever aquela história, fez sentido definir uma estrutura para que soubesse sempre ao que ia, mesmo que passasse meses sem escrever. Bendita a hora! Houve alturas em que, sem isso, teria sido impossível não perder o fio à meada. E houve outras alturas em que a minha história ganhou vida própria e a estrutura que eu tinha definido foi posta de lado. Aconteceram coisas naquele livro que eu não previra e também eu fui surpreendida, apesar de ter sido eu a escrevê-lo.
Há quem escreva completamente ao sabor do próprio texto. Há quem crie personagens primeiro, ou cenários ou acontecimentos específicos. Há quem escreva primeiro o final da história, como se soubessem como acaba, mas desconhecessem o caminho para lá chegar, construindo depois a narrativa de maneira a desembocar ali. 
No meu caso, houve coisas que só descobri mesmo no final do livro, quando as estava a escrever. Aconteceu assim. No livro que estou a escrever agora (e dizer isto é falacioso porque, na verdade, ainda não escrevi uma palavra sequer), comecei por delinear as personagens e é a elas que estou a dedicar-me antes de me lançar ao texto propriamente dito. Sei de quem quero falar, mas desconheço ainda uma série de coisas que me serão essenciais para a construção da narrativa. Mas não estou nada preocupada. Estou apenas a experimentar um processo novo e logo vejo se me dou bem com ele.
O que me importa, na verdade, é contar as histórias. E as minhas histórias são pessoas, muito mais do que enredos. São as personagens que constroem os enredos e não o oposto. No meu caso, os enredos e as cenas que crio acontecem de determinada forma porque as personagens são de determinada maneira. Por isso é que acho que o mais valioso nos livros são sempre as pessoas que habitam neles. E é por isto que gosto tanto de thrillers psicológicos e de serial killers, por exemplo: porque adoro perceber o que está por detrás das acções das personagens e perceber como funcionam aquelas mentes deturpadas.

Foto de Lia Rodrigues


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